Quando chego em casa, ouço meus pais
discutindo novamente. Dessa vez as vozes estavam muito alteradas. Tinha raiva,
ódio na voz de minha mãe. Ela parecia não estar conformada com algo que meu pai
escondeu dela, ou pelo menos tentou esconder.
-
Bruna, meu amor entenda. Eu fiz isso pra te proteger.
- Me
proteger? Não Carlos, você não mentiu pra me proteger. Você mentiu para
proteger o assassino do meu filho.
-
Ele também era meu filho! – Pela primeira vez desde a morte de Filipi que ouço
meu pai alterar a voz daquele jeito para minha mãe. Mas isso não a intimidou,
pelo contrário a deixou com mais raiva ainda.
-
Seu filho e mesmo assim você permitiu que o assassino fugisse.
-
Ele não fugiu. Ele prometeu que voltaria para se entregar e pagar pelo erro que
cometeu. Foi um acidente Bruna.
-
Acidente! – Ouço o riso de ironia de minha mãe. – Como você é tolo Carlos. Você
e João acreditam mesmo que ele vai voltar para se entregar?
-
Por que não? Ele não veio e confessou ser o culpado pelo acidente.
-
Isso não foi um acidente! Minha mãe grita e com isso me assusto e esbarro em um
vaso que caí e chamo a atenção de meus pais.
-
Dany, minha filha – Meu pai vai em minha direção. – Há quanto tempo você está
aí? – Me leva para perto de minha mãe que me abraça.
-
Estou a tempo suficiente pra saber que vocês sabem quem foi o homem eu matou
meu irmão.
-
Sim querida, sabemos, mas seu pai e o delegado resolveram deixar ele escapar
por entre seus dedos.
-
Como assim? Ele não está preso, papai?
-
Não, Dany, ele não está preso ainda.
- E
nunca vai estar graças ao seu pai. Ele acha que ele irá se entregar.
-
Bruna pare! Dany eu vou lhe contar tudo o que aconteceu.
-
Diga-lhe o nome do assassino Carlos. Diga a ela o tipo de pessoa que ele é. Que
a família dele é.
-
Pai do que a mamãe está falando?
- Venha
sente-se. Acho que chegou a hora de você saber a verdade.
A
cada palavra mencionada por meu pai era como se espinhos estivessem penetrando
minha carne. A raiva aumentando cada vez mais. Não era raiva de meu pai, ou de
João, de minha mãe. Não era raiva de ninguém. A raiva era de mim, por ter sido
tão fraca. Incapaz de ver, de enxergar e agora tudo teria de ser diferente. Não
sei dizer se no meu coração existe espaço para perdão. Meus olhos estão secos.
Não consigo mais chorar ou mesmo me lamentar. Meu pai me olha. Toca meu
cabelos, alisa minha face e abraça-me.
-
Vai ficar tudo bem minha filha. Eu prometo. Essa história vai acabar e nós
vamos apenas nos lembrar do Filipi alegre e sorridente, você vai ver.
- Eu
sei pai. Acho que vou para o meu quarto. Tô precisando descansar.
Minha
mãe não está mais na sala. Aproveitou a oportunidade e saiu. Não sabemos para
onde ela possa ter ido, mas ficamos preocupados. Ela estava transtornada. Seus
olhos eram chamas ardentes de ódio. E seu combustível era vingança. Ela seria
capaz de tudo para ver o assassino de Filipi pagar por seu crime.
- Eu
vou procurar sua mãe.
-
Vou também.
-
Não! É melhor que você fique em casa para o caso de ela voltar. Se ela voltar
me liga, está bem?
-
Você tem razão.
-
Dany, filha, você vai ficar bem?
-
Vou sim. Pode ir pai. Eu ligo caso ela volte.
Para
dizer a verdade, não sei se gostaria que ele a encontrasse. Estou dividida
entre a vingança de minha mãe e o perdão de meu pai. Minha mente pede pela
vingança de minha mãe, mas meu coração pensa nele e talvez por ele eu libere o
perdão. Perdão para mim, para que finalmente eu encontre a minha felicidade.
----/----
-
Meu filho!
Sou arrancado
das águas e de frente para o homem que diz ser o meu pai. O pesadelo agora é
real. Não tem como acordar. Não sei como cheguei naquela mesa nem como
sentei-me ali.
-
Filho você está bem?
-
Não me chame de filho. – Meus olhos ardiam. Minha voz estava distorcida, as
palavras amargavam em minha boca. Meu olhar para ele era desprezo.
-
Tudo bem, me desculpe. Eu sei como você se sente...
-
Não você nem imagina como me sinto ou como me senti. Você nunca vai sentir
isso. Você teve um pai. Teve uma mãe. Você teve uma família, mas achou por bem
arrancar isso de mim. E agora vem me dizer que sabe como me sinto. Você não faz
ideia.
-
Certo, Samuel você tem razão. – Vejo que o deixei desconcertado – Eu realmente
não sei como você se senti ou se sentiu durante todos esses anos. Eu não vim
aqui para recuperar esses anos perdidos
-
Então porque veio? Para me abandonar de novo?
-
Não! Vim para te pedir perdão. Para recomeçar, escrevermos uma nova história
para nós dois meu filho.
-
Porque? Porque você nunca me amou?
-
Samuel, quando você nasceu eu era imaturo. Não tinha pensado no meu futuro e
quando sua mãe me disse que esperava um filho eu pirei. Não tinha emprego,
passava as noites em claro, bebendo e me divertindo com os amigos. Achei que
você só iria atrapalhar.
-
Você destruiu a vida da minha mãe. Esses 03 anos que você passou longe ela te
esperou sabia? Achando que você viria busca-la para viver com você. Mas ela se
enganou.
-
Quando sua mãe descobriu de sua gravidez ela fez de tudo para que nós nos
casássemos, mas eu recusei e aceitei de apenas morar com ela. Quando você
nasceu sua mãe se afastou de mim. Preocupava-se com você de dia e de noite.
Nada para ela é mais importante do que você.
- E
por causa disso você nos abandonou?
-
Claro que não. Depois que você nasceu. Sua mãe e eu brigávamos todas as noites.
Daí eu saia e só voltava para casa nas primeiras horas do dia.
-
Por isso ela achava que eu era o culpado do seu abandono. E me culpava por tudo
que acontecesse.
- Eu
sinto muito, Samuel. E nós vivemos assim por anos. Certo dia sua mãe e eu
tivemos uma discussão enorme. – Percebo que sua voz é de pesar, transmite dor e
angústia quando pensa em seu passado – Sai de casa e passei a noite com os
amigos.
-
Você sempre fazia isso. Fugia dos problemas, fugia dela e de mim. Porque você
nunca esteve presente na minha vida? Porque se afastou?
- Eu
era imaturo Samuel. Não queria compromisso com ninguém, muito menos com um
filho. Quando recebi a notícia de que sua mãe estava grávida pensei logo que
era o golpe da barriga.
-
Sério? Você achou mesmo que ela iria fazer isso?
-
Sua mãe era apaixonada por mim. Tinha medo que eu a deixasse. Sim eu acreditei
mesmo que esse fosse o plano dela. Assim me fechei. Só fui morar com ela porque
meu pai me obrigou, mas não éramos mais um casal.
-
Você então resolveu fazê-la sofrer, com o intuito de que ela te deixasse livre.
Como você pode?
- Eu
sei que errei muito, mas quero que você entenda que hoje eu sou diferente, que
mudei, que sou outro homem. E se voltei foi para redimir meus erros e pagar por
eles.
Nenhum comentário:
Postar um comentário