segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A FELICIDADE - CAPÍTULO XVII - Autor: Zedekiah

Quando chego em casa, ouço meus pais discutindo novamente. Dessa vez as vozes estavam muito alteradas. Tinha raiva, ódio na voz de minha mãe. Ela parecia não estar conformada com algo que meu pai escondeu dela, ou pelo menos tentou esconder.
- Bruna, meu amor entenda. Eu fiz isso pra te proteger.
- Me proteger? Não Carlos, você não mentiu pra me proteger. Você mentiu para proteger o assassino do meu filho.
- Ele também era meu filho! – Pela primeira vez desde a morte de Filipi que ouço meu pai alterar a voz daquele jeito para minha mãe. Mas isso não a intimidou, pelo contrário a deixou com mais raiva ainda.
- Seu filho e mesmo assim você permitiu que o assassino fugisse.
- Ele não fugiu. Ele prometeu que voltaria para se entregar e pagar pelo erro que cometeu. Foi um acidente Bruna.
- Acidente! – Ouço o riso de ironia de minha mãe. – Como você é tolo Carlos. Você e João acreditam mesmo que ele vai voltar para se entregar?
- Por que não? Ele não veio e confessou ser o culpado pelo acidente.
- Isso não foi um acidente! Minha mãe grita e com isso me assusto e esbarro em um vaso que caí e chamo a atenção de meus pais.
- Dany, minha filha – Meu pai vai em minha direção. – Há quanto tempo você está aí? – Me leva para perto de minha mãe que me abraça.
- Estou a tempo suficiente pra saber que vocês sabem quem foi o homem eu matou meu irmão.
- Sim querida, sabemos, mas seu pai e o delegado resolveram deixar ele escapar por entre seus dedos.
- Como assim? Ele não está preso, papai?
- Não, Dany, ele não está preso ainda.
- E nunca vai estar graças ao seu pai. Ele acha que ele irá se entregar.
- Bruna pare! Dany eu vou lhe contar tudo o que aconteceu.
- Diga-lhe o nome do assassino Carlos. Diga a ela o tipo de pessoa que ele é. Que a família dele é.
- Pai do que a mamãe está falando?
- Venha sente-se. Acho que chegou a hora de você saber a verdade.
A cada palavra mencionada por meu pai era como se espinhos estivessem penetrando minha carne. A raiva aumentando cada vez mais. Não era raiva de meu pai, ou de João, de minha mãe. Não era raiva de ninguém. A raiva era de mim, por ter sido tão fraca. Incapaz de ver, de enxergar e agora tudo teria de ser diferente. Não sei dizer se no meu coração existe espaço para perdão. Meus olhos estão secos. Não consigo mais chorar ou mesmo me lamentar. Meu pai me olha. Toca meu cabelos, alisa minha face e abraça-me.
- Vai ficar tudo bem minha filha. Eu prometo. Essa história vai acabar e nós vamos apenas nos lembrar do Filipi alegre e sorridente, você vai ver.
- Eu sei pai. Acho que vou para o meu quarto. Tô precisando descansar.
Minha mãe não está mais na sala. Aproveitou a oportunidade e saiu. Não sabemos para onde ela possa ter ido, mas ficamos preocupados. Ela estava transtornada. Seus olhos eram chamas ardentes de ódio. E seu combustível era vingança. Ela seria capaz de tudo para ver o assassino de Filipi pagar por seu crime.
- Eu vou procurar sua mãe.
- Vou também.
- Não! É melhor que você fique em casa para o caso de ela voltar. Se ela voltar me liga, está bem?
- Você tem razão.
- Dany, filha, você vai ficar bem?
- Vou sim. Pode ir pai. Eu ligo caso ela volte.
Para dizer a verdade, não sei se gostaria que ele a encontrasse. Estou dividida entre a vingança de minha mãe e o perdão de meu pai. Minha mente pede pela vingança de minha mãe, mas meu coração pensa nele e talvez por ele eu libere o perdão. Perdão para mim, para que finalmente eu encontre a minha felicidade.

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- Meu filho!
Sou arrancado das águas e de frente para o homem que diz ser o meu pai. O pesadelo agora é real. Não tem como acordar. Não sei como cheguei naquela mesa nem como sentei-me ali.
- Filho você está bem?
- Não me chame de filho. – Meus olhos ardiam. Minha voz estava distorcida, as palavras amargavam em minha boca. Meu olhar para ele era desprezo.
- Tudo bem, me desculpe. Eu sei como você se sente...
- Não você nem imagina como me sinto ou como me senti. Você nunca vai sentir isso. Você teve um pai. Teve uma mãe. Você teve uma família, mas achou por bem arrancar isso de mim. E agora vem me dizer que sabe como me sinto. Você não faz ideia.
- Certo, Samuel você tem razão. – Vejo que o deixei desconcertado – Eu realmente não sei como você se senti ou se sentiu durante todos esses anos. Eu não vim aqui para recuperar esses anos perdidos
- Então porque veio? Para me abandonar de novo?
- Não! Vim para te pedir perdão. Para recomeçar, escrevermos uma nova história para nós dois meu filho.
- Porque? Porque você nunca me amou?
- Samuel, quando você nasceu eu era imaturo. Não tinha pensado no meu futuro e quando sua mãe me disse que esperava um filho eu pirei. Não tinha emprego, passava as noites em claro, bebendo e me divertindo com os amigos. Achei que você só iria atrapalhar.
- Você destruiu a vida da minha mãe. Esses 03 anos que você passou longe ela te esperou sabia? Achando que você viria busca-la para viver com você. Mas ela se enganou.
- Quando sua mãe descobriu de sua gravidez ela fez de tudo para que nós nos casássemos, mas eu recusei e aceitei de apenas morar com ela. Quando você nasceu sua mãe se afastou de mim. Preocupava-se com você de dia e de noite. Nada para ela é mais importante do que você.
- E por causa disso você nos abandonou?
- Claro que não. Depois que você nasceu. Sua mãe e eu brigávamos todas as noites. Daí eu saia e só voltava para casa nas primeiras horas do dia.
- Por isso ela achava que eu era o culpado do seu abandono. E me culpava por tudo que acontecesse.
- Eu sinto muito, Samuel. E nós vivemos assim por anos. Certo dia sua mãe e eu tivemos uma discussão enorme. – Percebo que sua voz é de pesar, transmite dor e angústia quando pensa em seu passado – Sai de casa e passei a noite com os amigos.
- Você sempre fazia isso. Fugia dos problemas, fugia dela e de mim. Porque você nunca esteve presente na minha vida? Porque se afastou?
- Eu era imaturo Samuel. Não queria compromisso com ninguém, muito menos com um filho. Quando recebi a notícia de que sua mãe estava grávida pensei logo que era o golpe da barriga.
- Sério? Você achou mesmo que ela iria fazer isso?
- Sua mãe era apaixonada por mim. Tinha medo que eu a deixasse. Sim eu acreditei mesmo que esse fosse o plano dela. Assim me fechei. Só fui morar com ela porque meu pai me obrigou, mas não éramos mais um casal.
- Você então resolveu fazê-la sofrer, com o intuito de que ela te deixasse livre. Como você pode?
- Eu sei que errei muito, mas quero que você entenda que hoje eu sou diferente, que mudei, que sou outro homem. E se voltei foi para redimir meus erros e pagar por eles.


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