A cidade é pequena. E em cidade pequena, as notícias correm, ou melhor, voam. Parece que são levadas nas asas do vento. E mesmo quando é uma notícia pequena, os moradores a transformam em algo realmente grande, algo que se deve discutir ou comentar em todas as esquinas, praças, lanchonetes e point da cidade. O assunto só morre na boca do povo quando surge um outro mais interessante.
Foi assim com a morte do meu irmão Filipi. Por mais que alguém não o conhecesse, isso não impedia de que comentasse ou opinasse sobre o fato acontecido. De uma hora para outro minha família passou a ser conhecida. Algumas pessoas não tem noção de como certos olhares e comentários nos machucam e magoa, isso durou por meses.
Lembro-me daquele dia como se fosse hoje. Pessoas me abraçavam, beijavam meu rosto e oferecia-me conforto. Pessoas que não conhecia. Pessoas que jamais dirigiram a mim palavra. Pessoas que sequer olharam para mim. Elas estavam lá, não por que se importavam. Estavam lá para ver, assistir e presenciar o nosso sofrimento.
No percurso até o único e pequeno cemitério existente na cidade, podia-se ouvir estranhos falarem: “Morreu tão novo”, “Que tragédia!”, “Quem são os pais?”, isso fazia com que eu sentia ainda mais dor. Subir a última ladeira que nos levava para a rua do cemitério me fazia chorar ainda mais, pois aquela ladeira trazia-me lembranças de Filipi que eram impossíveis esquecer.
Era final da tarde. Naquele dia resolvemos andar de bicicleta pela rua da cidade. Eu não gostava muito de andar de bicicleta, pois não tinha muita segurança e tinha muito medo de cair e me machucar. Já Filipi, conseguia fazer suas barbeiragens só para me deixar com o coração na mão. Justamente naquele dia ele resolveu descer aquela ladeira, eu tentei persuadi-lo a não irmos, pois já era tarde, mas ele começou a dizer que eu estava com medinho, que não tinha coragem. Eu aceitei o desafio.
Era uma ladeira íngreme, parecia não ter fim. Ao chegar na ladeira congelei e fiquei ali parada pensando como fui dar ouvidos a Filipi. Olhei para ele ao meu lado e vi o seu sorriso de satisfação em ver o medo em meus olhos. Juro que naquele momento eu podia torcer o pescoço dele. Ia dizer alguma coisa, mas ele não me deixou, jogou a bicicleta ladeira abaixo e gritou apenas que me esperava lá embaixo.
Como eu gostaria de reviver novamente aquele momento, aqueles instantes em que mesmo ele sendo irritante provocante eu ainda assim o amava, e o amava muito. Tudo para Filipi era festa. Não existiam para ele momentos ruins. Mesmo quando os problemas surgiam, ele os transformava em algo para sorrir.
O momento de dizer adeus foi tão difícil, tão triste, tão frio. Dar adeus ao meu amigo e irmão foi a coisa mais dolorida que já tive de fazer em todo a minha vida. Entender que não poderia mais ver o seu sorriso, ter o seu abraço, ouvir a sua voz era quase impossível. Tudo isso agora eu só teria no meu coração.
E hoje, mesmo três anos depois, o que mais dói é que o culpado não apareceu, impedindo que a justiça fosse feita. Até hoje espero que o culpado, ou culpada apareça para esclarecer o motivo de tirar da minha família parte da nossa felicidade.
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- Oi amor!
- Oi!
- Dany? Tudo bem!
- Sim, Samuel. Está tudo bem!
- É que você tá com uma carinha tão triste.
- Desculpa, meu amor. Estou só um pouco triste.
- Que houve? – sinto os braços de Samuel levarem-me ao seu peito – Sabe que pode me contar qualquer coisa!
- Eu sei Samuel. – deito minha cabeça sobre seu peito e ouvir seu coração bater acalma meu coração e começo a chorar.
- Dany você está chorando! – aperta inda mais o abraço e sinto-me segura em seus braços. – Estou aqui meu amor e nada vai te machucar, calma.
Ficamos assim, abraçados por algum tempo. Estar nos braços de Samuel me acalmava. Ele me transmitia paz para o meu coração e isso era tão bom. Todo o sentimento de raiva, ódio e vingança que existia dentro de mim pareciam desaparecer quando eu estava com ele. Não era eu que o estava ajudando, era ele que me ajudava.
- Desculpe-me Samuel.
- Pelo que Dany? Estou com você sempre
- Obrigada! É que você com tantos problemas com sua mãe. Sabe eu não quero ser mais um problema para você.
- Dany, você não é, e nunca será um problema para mim. Eu te amo! – ele segura meu rosto e beija-me. Eu me entrego ao seu beijo e esqueço tudo que me atormenta a alma.
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Passar algumas horas após as aulas com Samuel me deixa muito bem. Se fosse possível ficava com ele todos os dias, horas, minutos e segundos. Mas infelizmente sempre tenho de estar em casa para o almoço em família. Meu pai não abre mão deste momento. Confesso que depois que Filipi partiu, não sinto tanta vontade de estar a mesa. Sempre que olho para o lugar onde ele costumava sentar e o vejo vazio meu coração se despedaça novamente e a ferida é reaberta. Quando verei a justiça ser feita?
Quando Samuel me deixa em frente a minha casa, beijo-o e o abraço apertado e sigo em direção a porta, olho para trás e ele ainda está lá, me observando, me olhando com um sorriso maravilhoso. Detenho-me por um instante com as mãos no trinco da porta. Um sentimento de dor agora aflige meu coração, parece um prenúncio de que algo terrível irá acontecer. Olho para Samuel, ele ainda está ali, como sempre ele faz manda-me um beijo, sorrio mando outro para ele e entro.
- Uma pista! É uma pista Carlos.
- Temos que ter calma, querida. Foi apenas uma ligação anônima informando que talvez o atropelador esteja mais perto do que imaginemos.
- Certo! Você tem razão, mas Carlos é uma esperança de que a justiça seja feita.
- Amanhã, eu irei à delegacia e então veremos o que de verdade tem nessa informação.
- Pai o que você vai fazer na delegacia? Aconteceu alguma coisa? Vocês estão bem?
- Sim querida! Não aconteceu nada. É que amanhã vou à delegacia ver João, pois já faz tempo que ele não vem nos ver.
- É isso, Dany, seu pai vai a delegacia para ver João, nosso amigo. Agora que já estamos todos aqui, vamos almoçar.
- Vamos sim, mãe, hoje estou com muita fome, mas antes vou deixar minhas coisas no quarto.
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- Então você acha que seus pais não querem que você saiba que ainda estão procurando o responsável pela morte do seu irmão?
- Sim, Evellyn. Eu acho, ou porque eles inventariam essa desculpa.
- Mas porque eles esconderiam de você?
- Ah isso eu não sei, mas que eu vou descobrir isso vou.
Escuto minha mãe gritar meu nome da sala de jantar, avisando-me que já estão sentados a mesa apenas a minha espera.
- Evellyn, preciso ir. Meus pais estão me esperando para almoçar. Beijos!
- Beijos. Passo aí mais tarde, tudo bem?
- Ok
Vou para a sala ao encontro de meus pais, pensando no que ouvi quando cheguei em casa. Será que realmente conseguiram alguma informação que leve a descobrir quem foi o responsável pela tragédia em minha família? O desejo de vingança aumenta ainda mais e a curiosidade em saber porque meus pais esconderam de mim essa informação também.
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