segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A FELICIDADE - CAPÍTULO XVI - Autor: Zedekiah

O dia amanheceu. Os primeiros raios do sol adentraram meu quarto pela janela acertando em cheio meu rosto. Pareciam saber que eu não estava pronto para ele, mas teimosamente aquele dia queria que eu o vivesse, que sentisse toda a sua presença naquele instante.
- Samuel!
Era a voz de minha mãe a porta do quarto. Ela estava ansiosa. Sabia que aquele seria um grande dia. Uma grande mudança para minha vida e para sua. Ela até poderia estar pronta, mas eu tinha certeza de que eu não estava.
Quando penso em meu pai, não tenho boas lembranças. Nada que me faça pensar nele com carinho ou alegria. O que existe é apenas o vazio, a tristeza e a dor. Não sei se tomei a decisão certa de encontrar-me com ele.
- Filho, assim você vai se atrasar.
- Mãe, ele se atrasou muitos anos. – Levanto-me e vou abrir a porta. – Acho que ele não vai morrer se esperar por mim apenas umas horas.
- Eu sei, eu sei meu filho. Mas você tem de mostrar que é diferente dele
- E eu sou. Eu jamais deixaria de amar meu filho, muito menos o abandonaria.
- Samuel, por favor, apenas o escute está bem.
- Certo! Mas fique a senhora sabendo que só estou indo a este encontro por causa da senhora.
- Meu filho! Ele ainda é seu pai. Mesmo que ele não estivesse presente nas horas que você mais precisou.
- É mãe, justamente por isso, porque quando mais precisei ele não estava lá.
- Ele teve um motivo. – Minha mãe vai saindo do quarto para que eu possa me arrumar.
- Que motivo foi esse? Me conta.
- Não posso, somente ele poderá dizer. E somente você vai poder dizer se este motivo é válido para que você o perdoe.

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- Querida já está tudo resolvido.
- Então estou chegando aí ainda está noite.
- Não precisa. Já estou aqui esperando ele. Esperando meu filho.
- Você vai contar tudo a ele? Tem certeza disso Samuel?
- É a única forma que vejo para que ele me perdoe.  E talvez a única oportunidade que eu tenha antes de
- Eu sei. E é por isso que quero estar ao seu lado.
- Me perdoe meu amor. Eu não queria que fosse assim.
- Samuel sei que vai ser difícil, mas depois da tempestade virá a bonança e eu vou estar com você sempre.
- Não sei o que faria sem você, Patrícia, meu amor.
- Hoje a noite estarei aí com você. Eu te amo.
- Eu também te amo.

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- Sua mulher esteve aqui esses dias Carlos.
- Você não disse nada a ela. João ela não pode saber que nós sabemos quem é o responsável
- Você acha que eu não sei disso! O problema é que a qualquer momento ela pode descobrir meu amigo.
- Nem diga isso. Se Bruna descobrir quem é, eu nem sei o que ela pode fazer.
- Eu achei que essa raiva já tivesse passado.
- Eu também. Mas me enganei. Durante todos esses anos ela apenas alimentou em silêncio a raiva, tornando-a ódio. E esse é um ódio mortal. Bruna será capaz de tudo para coloca-lo atrás das grades.
- E quando você pretende contar a verdade a ela?
- A pergunta é: Você acha que ele realmente irá cumprir com aquilo que disse? Será que você não foi bonzinho demais João?
- O que você queria que eu fizesse? E eu o conheço de tempos, ele precisava de um tempo.
- Você sabe que isso não pode vazar até tudo estar resolvido. Principalmente Bruna e Dany não podem sonhar que nós sabíamos quem era e que foi ele que se entregou.
- Eu sei Carlos. Eu sei.

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Chegamos ao local determinado: minha mãe, Dany e eu. Elas resolveram me acompanhar até lá, mesmo contra minha vontade. Pelo menos consegui convencê-las a não ficarem por perto bisbilhotando. Me despedi de cada uma dando um beijo e um abraço e entrei.
Estive várias vezes naquela lanchonete, sempre gostei de lá. O ambiente aconchegante, os garçons receptivos, e o cheiro da comida eram de dar água na boca. Mas hoje, parecia que eu havia perdido todos os sentidos e que aquela não era a lanchonete que eu sempre fui. Parecia ser a primeira vez que entrava ali.
Fiquei parado por alguns instantes, observando, eu não o reconhecia mais, minha mãe disse que ele estava diferente, fiquei ali parado olhando esperando. De repente ele fica em pé. Acena. Sorri para mim. E eu ali. Parado. Imóvel. Meus lábios não se contraem em um sorriso e meu desejo e dar a volta e correr. Mas antes que eu possa fazer isso sou envolvido por um abraço e conduzido.
Novamente estou a beira do lago. Braços em volta de meu ombro. Dessa vez consigo ver seu rosto. Seus olhos negros, seus cabelos curtos e sua barba bem feita. Ele esboça um sorriso para mim. Eu posso velo. Posso ouvir sua respiração. Tento sair do seu abraço. Correr dali. Ir para longe. Mas estou congelado.
- Samuel! Samuel!
Ouço uma voz bem distante me chamando para a realidade. Mas o lago continua lá. O sol reflete o seu brilho nas suas águas. Eu estou lá olhando para o lago. Ele também.
- Samuel! Meu filho
De repente estou dentro da água, não me debato, não luto para sair dali. Minha respiração é ofegante. E apenas fixo o meu olhar em seus olhos. São tão parecidos com os meus. Tem uma tristeza neles que não consigo entender e nem compreender. Ouço a voz:
- Meu filho!

Sou arremessado para fora das águas e estou só. Encontro-me agora sentado na lanchonete de frente para ele. De frente para o meu pai. O pesadelo agora é real.

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