-
Não! – Estou nervoso. Meus pensamentos estão desordenados. Não consigo
controlar as lágrimas e nem a raiva que começo a sentir. Não sabia que ela
estava lá. Todos esses anos sempre sonhei com o momento em que ouviria essa
notícia. Esperava por isso, mas não imaginei que essa seria minha reação.
-
Filho, tenha calma.
-
Calma! A senhora está me pedindo para ter calma. Não da mãe. Foram três anos e
não três dias. E agora a senhora me diz que ele está de volta.
-
Samuel ele veio para lhe ver. Está arrependido. Quer pedir perdão a você.
-
Perdão! Arrependido! Por que agora? Depois de tanto tempo. Não eu não quero
vê-lo e muito menos falar com ele.
-
Filho, você precisa escutá-lo. Ouvir os seus motivos. Apesar de tudo ele te ama
muito.
-
Foi isso que ele disse a senhora? Que ainda te ama, daí a senhora o perdoou e
quer que ele volte para casa. – Gritando com minha mãe e de pé na porta da sala
– É isso dona Clara? Você vai voltar a morar com ele? – Ela não responde, mas
vejo que isso a machuca, percebo que ela não me contou tudo que sabe. – O que a
senhora ainda não me contou mãe?
-
Tem coisas meu filho que somente ele poderá te contar, te explicar.
-
Então isso não vai acontecer. – Bato a porta com força e saio sem destino.
Chorando tento organizar meus pensamentos. Colocar minhas ideias em ordem. E
procurar entender porque ele voltou agora e o que minha mãe não me contou.
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-
Samuel cara o que houve? Fiquei preocupado quando você me ligou. Vamos entra.
Vamos para o meu quarto.
Subimos
as escadas e enquanto subimos os degraus, a razão e a emoção me confundem. O
desejo de ver meu pai, de abraça-lo, beijá-lo ardem em meu peito. Mas de
repente esses sentimentos são suplantados pelo pesadelo que a algum tempo venho
tendo. Então esses sentimentos de amor são substituídos pela raiva, pelo
desprezo por meu pai.
-
Samuel! Samuel você está bem?
-
Erik ele voltou.
- O
que você tá falando? Cara, você tá me dizendo que seu pai está na cidade, é
isso?
-
Sim! Ele está na cidade e quer me ver. Falar comigo.
-
Nossa! – Vejo em minha frente um Erik surpreso, com cara de bobo, feliz por uma
notícia que aparentemente parece ser ótima. – Isso parece até uma ficção, né
não Samuel? – É então que ele olha para mim e percebe que não estou tão
entusiasmado quanto ele.
- É
sim Erik, parece até ficção.
- O
que? Você não está feliz não é meu amigo? – Sentando-se ao meu lado – Vamos
pode me contar o que está acontecendo? Como foi o encontro com ele?
-
Você não me ouviu? Eu ainda não o vi e nem sei se quero vê-lo.
-
Como assim não quer ver? Samuel, isso era o que você sempre quis. Você vivia
dizendo que queria que ele voltasse. Cara eu num tô te entendendo.
- Eu
sei. Eu sei Erik. Nem eu estou me entendendo. Não sei o que quero. Hora quero
ver ele. Falar com ele, mas tem hora que não quero. Eu quero apenas ficar longe
dele.
-
Meu amigo, eu sei que é uma barra, mas seu pai deve ter tido um motivo, alguma
razão para ter partido daquele jeito.
- Eu
sei. E é isso que me faz ter tanto medo de falar com ele.
-
Medo de que? De saber a verdade?
-
Não!... Talvez! Eu não sei tá bom Erik
-
Samuel, você tem de aceitar que tem um pai. Um pai que um dia sumiu da sua vida
sem dar explicação, mas que voltou e voltou por você. Para esclarecer o
acontecido. Você não acha que ele merece a oportunidade de se explicar pra
você?
-
Sinceramente eu não sei. Não sei o que fazer Erik.
-
Cara, você tem de pelo menos ouvir seu pai. Depois você decide se vai querer
ele por perto ou não. Você e seu pai estão tendo a oportunidade de se
reencontrarem. De perdoar um ao outro e recuperar o tempo que se perdeu. Você
merece isso. Você merece ter seu pai de volta. Ainda dá tempo, mas só você pode
decidir isso.
Erik
tinha razão. Eu queria meu pai de volta, mas e se eu não conseguir liberar o
perdão, esquecer o passado e poder viver em paz com meu pai e comigo mesmo.
----/----
Quando
saio da casa de Erik, não tenho vontade de voltar para casa, pois sei que minha
mãe estará me esperando. Sei que ela insistirá nesse assunto e eu ainda não
estou preparado para encontrar meu pai.
Várias
lembranças vem ao meu pensamento. Em nenhum deles vejo o rosto de meu pai. Ele
não estava lá. Mesmo antes de ele nos deixar, nunca esteve presente ao meu
lado. Então vejo nitidamente a cena:
- E
então Samuel, amanhã finalmente vamos conhecer seu pai na festa dos dias dos
pais aqui na escola?
-
Claro que não Pedro. Provavelmente ele vai inventar mais uma desculpa, como
todos os anos ele faz. – Ouço as gargalhadas deles. Os seus dedos apontados
para mim e eu não consigo me defender.
-
Vai ver Tiago ele nem pai tenha. Talvez o pai dele tenha o abandonado quando
viu o filho que tinha. – E os sons das risadas apenas aumentavam.
Ele
nunca se fez presente em nenhuma reunião ou festa da escola, minha mãe sempre
arrumava uma desculpa para dar. E por este motivo eu era perseguido na escola,
fui me afastando das pessoas, tornando-me uma pessoa rude e ignorante até que
conheci o Erik.
Todos
os anos sem saber o que era ter um pai de verdade, e agora ele estava ali
disposto a falar comigo, a ser o pai que não foi durante dezessete anos. E eu
precisava decidir se daria esta oportunidade a ele.
Meu
coração estava dividido, com medo de se magoar novamente. Medo de que mais
tarde ele nos abandonasse de novo. Não eu não queria passar por tudo novamente.
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