Nunca
gostei tanto da biblioteca como naqueles dias. Passávamos horas lá. Dany e eu. Tínhamos
até a nossa própria mesa. Se estudávamos? Claro que sim. Minhas notas
melhoraram e meu humor também.
Nossa!
O amor muda as pessoas. Ela era tudo de bom. Foi a melhor coisa que já
aconteceu na minha vida depois do meu amigo Erik.
O
pior momento era saber que teria de retornar para casa em algum momento. Não
contei para Dany, os fatos da noite passada. Não tive coragem. Tive medo de
afastar ela de mim. Sei que estou sendo egoísta, mas não quero perde-la. Não agora
que tudo parece está indo tão bem pra mim, pelo menos fora de casa.
Precisava conversar. Necessitava desabafar com alguém. Por isso ao me despedir de Dany,
fui ao encontro de Erik.
Mesmo
com seu jeito meio doido, despreocupado e pra lá de estranho, Erik me dá
conselhos legais e me escuta como ninguém. Não sei como ele consegue, mas ele o
faz.
Ele
percebeu que eu estava mal e por isso contei-lhe sobre o pesadelo que tive
naquela noite, e o que me impressionou foi que ele apenas me abraçou e chorou
comigo. Compartilhou e sentiu a minha dor.
Envolvido
em um abraço apertado, enquanto me debato, Erik me oferece as únicas palavras
que parece poder pronunciar naquele momento. Não vejo seus olhos, mas pela sua voz
embargada acredito que meu melhor amigo chora comigo. Chora por mim.
----/----
- Eu
não te odeio Samuel. Eu sou e sempre serei seu amigo. Eu te amo meu amigo.
- O
que eu faço Erik? Eu não sei se consigo mais. – afasto-me de Erik, viro-me de
costas para ele, e em desespero com as mãos na cabeça pronuncio as palavras que
ferem ainda mais meu coração – Ela me culpa pela partida dele. Ela não me ama,
queria que eu nunca tivesse nascido. Erik, você entende, minha própria mãe me
despreza, me odeia...
- Não!
Isso não é verdade meu amigo. Dona Clara te ama. Você é filho dela. Ela...Ela
apenas está muito doente. Precisando de ajuda, de um médico. Tire isso de sua
cabeça Samuel. Sua mãe te ama.
- Eu
já não tenho tanta certeza.
Erik
parece não ter palavras naquele momento. Com seus olhos apenas observa meu
desespero. Percebo que seus lábios tentam formar algum argumento que tente
acalmar meu coração, mas ele desiste, parece não existir palavras certas que
possam acalmar a corrente de tristeza que flui dentro de mim. Preciso colocar
para fora, tenho que retirar de dentro de mim. Não posso deixar que isso me consumisse.
E
ouvindo os murmúrios das águas do rio Paraíba que corria abaixo da ponte do
Meteros onde conversávamos parecia que o Paraíba chorava comigo. Conhecia minha
dor. Com o sol já se pondo e deixando o dia com o brilho alaranjado, parecendo
preparar o dia para a escuridão que se aproximava. Segurei-me na ponte e olhava
para o horizonte, meu coração doía, estava frívolo, parecia querer parar de
bater para não sentir tamanha dor. Sinto então em meus ombros uma mão. Um aperto.
Olho para o lado e vejo os olhos de Erik. Mesmo calado vejo o seu
consentimento. No aperto de suas mãos o sinto dizer “eu estou com você”.
Volto
meu olhar para o rio caudaloso, suas águas estão negras agora pela escuridão,
mas reflete o brilho da lua que nos observa agora do céu sem estrelas. Ergo
minha cabeça para o céu e depois olho a minha frente e vejo apenas a escuridão.
O
escuro.
O
negro.
O Frio.
O Gélido.
Observam-me.
Enxergam a minha tristeza. Então, meus olhos se inundam de lágrimas e choro
copiosamente. Mas ainda sinto Erik. Ainda posso ouvir sua respiração, sua mão e
sua voz:
-
Faça!
E
com as lágrimas rolando em meu rosto solto o mais alto grito de dor, tristeza e
pesar que posso. Ao longe ouço algumas aves alçarem voos, talvez eu as tenha
assustado.
Com
o grito parece que minhas forças se esvaem e eu caio. Não fosse por Erik tinha caído
ao chão e passado a noite ali, mas ele me sustenta, me ergue.
-
Venha, meu amigo. Vou leva-lo para casa. Amanhã vai ficar tudo bem.
----/----
Fecho
meus olhos e lá está ela. Dany. Ela sorri para mim. Vem vindo ao meu encontro e
eu vou ao encontro dela. Como ela é linda. Seus olhos. Seus cabelos. Tudo lindo.
Tudo perfeito. Abraçamo-nos. Como é bom estar envolvido nos seus braços e
sentir seu perfume. Não! Agora não quero acordar, se é que estou dormindo. Não quero
abrir meus olhos e perder este momento. Ela me olha nos olhos, suas mãos agora
estão envolta de meu pescoço, alisam meus cabelos. Sinto sua respiração bem
perto e seus lábios encostam-se ao meu.
De repente
o sinal da escola toca. Ela sorri para mim. Eu sorrio de volta e então ela
segura minha mão. Meu coração dispara. É muita felicidade.
O sinal
toca novamente, os alunos correm. Tropeçam em nós. Dany cai, tento segurá-la,
mas a multidão a arrasta. Derrubam-me. Quando levanto e abro meus olhos, estou
novamente no lago com meu pai.
O mesmo
sonho. O mesmo pesadelo. Desperto.
03:15
da madrugada. Será que minha vida será assim para sempre?
Penso
em levantar e ir a cozinha tomar um pouco de água, mas lembro da noite passada.
Do encontro com minha mãe. Definitivamente não estou preparado para outro
encontro como aquele. Fico na cama. Embaixo da coberta. Tento não pensar no
pesadelo e procuro por lembranças que possam me acalmar. Não tem nada. Nenhuma lembrança.
Nenhuma recordação com minha mãe ou com meu pai.
Não
consigo mais dormir. Tenho medo de fechar meus olhos e ter aquele pesadelo novamente.
Quero
que o dia amanheça. Quero ir à escola. Quero ver Erik. E principalmente quero
ver Dany.
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