quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A FELICIDADE - CAPÍTULO IX - Autor: Zedekiah

Nunca gostei tanto da biblioteca como naqueles dias. Passávamos horas lá. Dany e eu. Tínhamos até a nossa própria mesa. Se estudávamos? Claro que sim. Minhas notas melhoraram e meu humor também.
Nossa! O amor muda as pessoas. Ela era tudo de bom. Foi a melhor coisa que já aconteceu na minha vida depois do meu amigo Erik.
O pior momento era saber que teria de retornar para casa em algum momento. Não contei para Dany, os fatos da noite passada. Não tive coragem. Tive medo de afastar ela de mim. Sei que estou sendo egoísta, mas não quero perde-la. Não agora que tudo parece está indo tão bem pra mim, pelo menos fora de casa.
Precisava conversar. Necessitava desabafar com alguém. Por isso ao me despedir de Dany, fui ao encontro de Erik.
Mesmo com seu jeito meio doido, despreocupado e pra lá de estranho, Erik me dá conselhos legais e me escuta como ninguém. Não sei como ele consegue, mas ele o faz.
Ele percebeu que eu estava mal e por isso contei-lhe sobre o pesadelo que tive naquela noite, e o que me impressionou foi que ele apenas me abraçou e chorou comigo. Compartilhou e sentiu a minha dor.
Envolvido em um abraço apertado, enquanto me debato, Erik me oferece as únicas palavras que parece poder pronunciar naquele momento. Não vejo seus olhos, mas pela sua voz embargada acredito que meu melhor amigo chora comigo. Chora por mim.

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- Eu não te odeio Samuel. Eu sou e sempre serei seu amigo. Eu te amo meu amigo.
- O que eu faço Erik? Eu não sei se consigo mais. – afasto-me de Erik, viro-me de costas para ele, e em desespero com as mãos na cabeça pronuncio as palavras que ferem ainda mais meu coração – Ela me culpa pela partida dele. Ela não me ama, queria que eu nunca tivesse nascido. Erik, você entende, minha própria mãe me despreza, me odeia...
- Não! Isso não é verdade meu amigo. Dona Clara te ama. Você é filho dela. Ela...Ela apenas está muito doente. Precisando de ajuda, de um médico. Tire isso de sua cabeça Samuel. Sua mãe te ama.
- Eu já não tenho tanta certeza.
Erik parece não ter palavras naquele momento. Com seus olhos apenas observa meu desespero. Percebo que seus lábios tentam formar algum argumento que tente acalmar meu coração, mas ele desiste, parece não existir palavras certas que possam acalmar a corrente de tristeza que flui dentro de mim. Preciso colocar para fora, tenho que retirar de dentro de mim. Não posso deixar que isso me consumisse.
E ouvindo os murmúrios das águas do rio Paraíba que corria abaixo da ponte do Meteros onde conversávamos parecia que o Paraíba chorava comigo. Conhecia minha dor. Com o sol já se pondo e deixando o dia com o brilho alaranjado, parecendo preparar o dia para a escuridão que se aproximava. Segurei-me na ponte e olhava para o horizonte, meu coração doía, estava frívolo, parecia querer parar de bater para não sentir tamanha dor. Sinto então em meus ombros uma mão. Um aperto. Olho para o lado e vejo os olhos de Erik. Mesmo calado vejo o seu consentimento. No aperto de suas mãos o sinto dizer “eu estou com você”.
Volto meu olhar para o rio caudaloso, suas águas estão negras agora pela escuridão, mas reflete o brilho da lua que nos observa agora do céu sem estrelas. Ergo minha cabeça para o céu e depois olho a minha frente e vejo apenas a escuridão.
O escuro.
O negro.
O Frio.
O Gélido.
Observam-me. Enxergam a minha tristeza. Então, meus olhos se inundam de lágrimas e choro copiosamente. Mas ainda sinto Erik. Ainda posso ouvir sua respiração, sua mão e sua voz:
- Faça!
E com as lágrimas rolando em meu rosto solto o mais alto grito de dor, tristeza e pesar que posso. Ao longe ouço algumas aves alçarem voos, talvez eu as tenha assustado.
Com o grito parece que minhas forças se esvaem e eu caio. Não fosse por Erik tinha caído ao chão e passado a noite ali, mas ele me sustenta, me ergue.
- Venha, meu amigo. Vou leva-lo para casa. Amanhã vai ficar tudo bem.

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Fecho meus olhos e lá está ela. Dany. Ela sorri para mim. Vem vindo ao meu encontro e eu vou ao encontro dela. Como ela é linda. Seus olhos. Seus cabelos. Tudo lindo. Tudo perfeito. Abraçamo-nos. Como é bom estar envolvido nos seus braços e sentir seu perfume. Não! Agora não quero acordar, se é que estou dormindo. Não quero abrir meus olhos e perder este momento. Ela me olha nos olhos, suas mãos agora estão envolta de meu pescoço, alisam meus cabelos. Sinto sua respiração bem perto e seus lábios encostam-se ao meu.
De repente o sinal da escola toca. Ela sorri para mim. Eu sorrio de volta e então ela segura minha mão. Meu coração dispara. É muita felicidade.
O sinal toca novamente, os alunos correm. Tropeçam em nós. Dany cai, tento segurá-la, mas a multidão a arrasta. Derrubam-me. Quando levanto e abro meus olhos, estou novamente no lago com meu pai.
O mesmo sonho. O mesmo pesadelo. Desperto.
03:15 da madrugada. Será que minha vida será assim para sempre?
Penso em levantar e ir a cozinha tomar um pouco de água, mas lembro da noite passada. Do encontro com minha mãe. Definitivamente não estou preparado para outro encontro como aquele. Fico na cama. Embaixo da coberta. Tento não pensar no pesadelo e procuro por lembranças que possam me acalmar. Não tem nada. Nenhuma lembrança. Nenhuma recordação com minha mãe ou com meu pai.
Não consigo mais dormir. Tenho medo de fechar meus olhos e ter aquele pesadelo novamente.

Quero que o dia amanheça. Quero ir à escola. Quero ver Erik. E principalmente quero ver Dany.

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