Capítulo IV
Dim!
Dim! Dim! Dim!
Ao
ouvir esse som sentia um aperto em meu coração. Meus pensamentos paravam e o
meu coração desejava que este momento não houvesse chegado. A escola era o meu
refúgio.
As
reclamações que sempre ouvia de meus colegas sobre ter de acordar cedo e vir
para escola, quando poderiam estar em casa dormindo e jogando “Mário Bross” não
fazia sentido para mim. Retornar para casa era a última coisa que eu gostaria
de fazer não só hoje, mas todos os dias. O fim de semana era mortal, se pudesse
me distanciaria o máximo que possível.
Porém,
minha realidade era outra.
Dim!
Dim! Dim! Dim!
Este
era o som que apertava meu coração, que tornava o meu dia de sol em um nevoeiro
escuro, gélido e solitário. Minha casa, retornar para ela não me dava prazer. Não ansiava correr em sua direção, pois sabia o que me aguardava ao atravessar
a porta. Claro que amo minha mãe, mas acho que a vida já lhe surrou tanto que
ela endureceu, criou ao seu redor uma espécie de blindagem que na verdade não
lhe protege e a cada dia lhe deixa com cicatrizes que jamais sumirão e por mais
que tente não sei o que fazer.
“Aquela
que é forte”!
Este é
o significado do nome dela, mas assim como Sansão ela perdeu a força já a muito
tempo. Digo que a diferença de minha mãe para com Sansão é que ele perdeu a
força, mas conseguiu tê-la novamente, minha mãe por
sua vez parece ter desistido de viver.
Eu
gostaria de ver novamente a Dona Carla sorridente, feliz, que sempre estava
rodeada de amigos, que sempre tinha uma palavra de ânimo, um ombro amigo nos
momentos que mais precisávamos. Gostaria de ver novamente o brilho da vida em
seus olhos cor de mel, a alegria em seu semblante a me ver chegar em casa
depois da aula, sentar e saborear um almoço preparado por ela para mim.
Desejos.
Sonhos. Lembranças que a vida e o tempo fizeram questão de destruir e deixar
claro que jamais voltariam. Que minha vida e de minha mãe nunca mais seriam as
mesmas. A vida fez questão de me mostrar que se um dia pensamos que éramos
felizes, nos enganamos.
-
Samuel, você e eu, meu filho, não fomos feitos para ser feliz. A felicidade não
existe para nós. Contente-se e aceite o que a vida lhe reservou.
Era
assim que ela encerrava a discussão quando eu lhe questionava o motivo de tanta
amargura e sofrimento em sua vida. Eu só queria minha mãe de volta e por ela eu
era capaz de tudo.
Dim!
Dim! Dim! Dim!
Este
som me trazia a realidade de novo.
- E
então Samuel, vai conosco bater aquela peladinha? Não vamos demorar, uma hora
no máximo.
- Não
vai dar. E Erik você sabe muito bem que ainda tenho de terminar o trabalho
sobre o JK.
-
Trabalho!? Ah, lembrei aquele que você não conseguiu terminar porque uma bela
garota sentou-se à mesa onde você estava, tirou sua concentração e deixou você
sem palavras. É esse?
-
Hahahaha! Tô rolando de rir. Sim é este. E, aliás, o senhor também tem um
trabalho para entregar.
- Ei! Você
conhece as teclas “CTRL+C” e “CTRL+V”? Elas são muito minhas amigas, posso te
apresentá-las.
- Não,
obrigado!
-
Samuel, sério cara, porque você não perguntou o nome da garota? Agora você nem
sabe como achá-la.
- Eu
já disse não tive coragem. O que você queria que eu fizesse?
- Ora
o que todo mundo faz: “Oi! Meu nome é Samuel e o seu?” Viu como era simples,
mas com você tudo é complicado.
- É,
mas agora não adianta mais. O melhor a fazer é esquecer aquela garota e seguir
em frente.
- Tudo
bem! Se você acha que vai conseguir esquecer. Só acho que você deveria falar
com Dona Neide. Cara ela sabe tudo, conhece todo mundo e com certeza te daria
alguma informação sobre a “garota misteriosa”.
- Quê?
Você tá maluco se acha que vou fazer isso. Além do mais, Dona Neide pode ver,
ouvir e até saber de tudo, mas é uma pessoa muito discreta e não iria sair
falando só porque eu perguntei.
- Ok!
Você que sabe. – enquanto falava, Erik se afastava indo de encontro aos outros
amigos, que iriam com ele jogar futebol. – Mas pense: o que você teria a
perder?
Perder!
Já perdi tantas coisas na vida que poderia fazer uma lista com elas para ele. Estou
começando a pensar que Erik talvez tenha razão, no máximo a resposta que posso
ter de Dona Neide é um sonoro NÃO.
Caminhando
entre os corredores da escola em direção à saída principal comecei a pensar e a
confabular como deveria indagar a Dona Neide sem ser inconveniente. Naquele dia
minha intenção não era ir a biblioteca, mas enquanto caminhava desviando-me de
alunos que iam e viam, sorriam e falavam sem parar, pareciam até que suas vidas
era um verdadeiro mar de rosas belas e sem espinhos alguns. Muito deles não
precisavam preocupar-se com o horário do ônibus, pois tinham seus pais em seus
belos carros de vidros fumês que vinham diariamente buscá-los na
escola. Faziam questão de mostrar que tinham posses e que os pais ou motoristas
vinham pegá-los. Ás vezes me perguntava o porquê de estudarem em escola
pública quando tinham perfeitas condições de pagar uma escola particular.
Bem o
que importa mesmo é que enquanto caminhava para sair da escola e retomar a
minha “vida real” deparei-me de frente às grandes portas da biblioteca, não sei
como cheguei ali, mas ali estava eu. Parado, diante das portas da biblioteca e
agora decidindo se deveria ou não seguir o conselho de meu amigo e tomar um
belíssimo “não” de Dona Neide.
A
decisão era minha e de mais ninguém.
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