quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A FELICIDADE - CAPÍTULO IV - Autor: Zedekiah

Capítulo IV


Dim! Dim! Dim! Dim!
Ao ouvir esse som sentia um aperto em meu coração. Meus pensamentos paravam e o meu coração desejava que este momento não houvesse chegado. A escola era o meu refúgio.
As reclamações que sempre ouvia de meus colegas sobre ter de acordar cedo e vir para escola, quando poderiam estar em casa dormindo e jogando “Mário Bross” não fazia sentido para mim. Retornar para casa era a última coisa que eu gostaria de fazer não só hoje, mas todos os dias. O fim de semana era mortal, se pudesse me distanciaria o máximo que possível.
Porém, minha realidade era outra.
Dim! Dim! Dim! Dim!
Este era o som que apertava meu coração, que tornava o meu dia de sol em um nevoeiro escuro, gélido e solitário. Minha casa, retornar para ela não me dava prazer. Não ansiava correr em sua direção, pois sabia o que me aguardava ao atravessar a porta. Claro que amo minha mãe, mas acho que a vida já lhe surrou tanto que ela endureceu, criou ao seu redor uma espécie de blindagem que na verdade não lhe protege e a cada dia lhe deixa com cicatrizes que jamais sumirão e por mais que tente não sei o que fazer.
“Aquela que é forte”!
Este é o significado do nome dela, mas assim como Sansão ela perdeu a força já a muito tempo. Digo que a diferença de minha mãe para com Sansão é que ele perdeu a força, mas conseguiu tê-la novamente, minha mãe por sua vez parece ter desistido de viver.
Eu gostaria de ver novamente a Dona Carla sorridente, feliz, que sempre estava rodeada de amigos, que sempre tinha uma palavra de ânimo, um ombro amigo nos momentos que mais precisávamos. Gostaria de ver novamente o brilho da vida em seus olhos cor de mel, a alegria em seu semblante a me ver chegar em casa depois da aula, sentar e saborear um almoço preparado por ela para mim.
Desejos. Sonhos. Lembranças que a vida e o tempo fizeram questão de destruir e deixar claro que jamais voltariam. Que minha vida e de minha mãe nunca mais seriam as mesmas. A vida fez questão de me mostrar que se um dia pensamos que éramos felizes, nos enganamos.
- Samuel, você e eu, meu filho, não fomos feitos para ser feliz. A felicidade não existe para nós. Contente-se e aceite o que a vida lhe reservou.
Era assim que ela encerrava a discussão quando eu lhe questionava o motivo de tanta amargura e sofrimento em sua vida. Eu só queria minha mãe de volta e por ela eu era capaz de tudo.
Dim! Dim! Dim! Dim!
Este som me trazia a realidade de novo.
- E então Samuel, vai conosco bater aquela peladinha? Não vamos demorar, uma hora no máximo.
- Não vai dar. E Erik você sabe muito bem que ainda tenho de terminar o trabalho sobre o JK.
- Trabalho!? Ah, lembrei aquele que você não conseguiu terminar porque uma bela garota sentou-se à mesa onde você estava, tirou sua concentração e deixou você sem palavras. É esse?
- Hahahaha! Tô rolando de rir. Sim é este. E, aliás, o senhor também tem um trabalho para entregar.
- Ei! Você conhece as teclas “CTRL+C” e “CTRL+V”? Elas são muito minhas amigas, posso te apresentá-las.
- Não, obrigado!
- Samuel, sério cara, porque você não perguntou o nome da garota? Agora você nem sabe como achá-la.
- Eu já disse não tive coragem. O que você queria que eu fizesse?
- Ora o que todo mundo faz: “Oi! Meu nome é Samuel e o seu?” Viu como era simples, mas com você tudo é complicado.
- É, mas agora não adianta mais. O melhor a fazer é esquecer aquela garota e seguir em frente.
- Tudo bem! Se você acha que vai conseguir esquecer. Só acho que você deveria falar com Dona Neide. Cara ela sabe tudo, conhece todo mundo e com certeza te daria alguma informação sobre a “garota misteriosa”.
- Quê? Você tá maluco se acha que vou fazer isso. Além do mais, Dona Neide pode ver, ouvir e até saber de tudo, mas é uma pessoa muito discreta e não iria sair falando só porque eu perguntei.
- Ok! Você que sabe. – enquanto falava, Erik se afastava indo de encontro aos outros amigos, que iriam com ele jogar futebol. – Mas pense: o que você teria a perder?
Perder! Já perdi tantas coisas na vida que poderia fazer uma lista com elas para ele. Estou começando a pensar que Erik talvez tenha razão, no máximo a resposta que posso ter de Dona Neide é um sonoro NÃO.
Caminhando entre os corredores da escola em direção à saída principal comecei a pensar e a confabular como deveria indagar a Dona Neide sem ser inconveniente. Naquele dia minha intenção não era ir a biblioteca, mas enquanto caminhava desviando-me de alunos que iam e viam, sorriam e falavam sem parar, pareciam até que suas vidas era um verdadeiro mar de rosas belas e sem espinhos alguns. Muito deles não precisavam preocupar-se com o horário do ônibus, pois tinham seus pais em seus belos carros de vidros fumês que vinham diariamente buscá-los na escola. Faziam questão de mostrar que tinham posses e que os pais ou motoristas vinham pegá-los. Ás vezes me perguntava o porquê de estudarem em escola pública quando tinham perfeitas condições de pagar uma escola particular.
Bem o que importa mesmo é que enquanto caminhava para sair da escola e retomar a minha “vida real” deparei-me de frente às grandes portas da biblioteca, não sei como cheguei ali, mas ali estava eu. Parado, diante das portas da biblioteca e agora decidindo se deveria ou não seguir o conselho de meu amigo e tomar um belíssimo “não” de Dona Neide.

A decisão era minha e de mais ninguém.

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