Ele
era muito mais que um amigo. Era um irmão.
Lipi.
Era
assim que eu o chamava. Achava que ele seria meu único amigo. Meu companheiro
de aventuras. Meu confidente. Lipi era leal. Sabe aquele amigo que está pronto
pra te defender em tudo. Que sempre estava ali quando você precisava.
É! Mas
eu falhei com ele. Eu não pude estar ao lado dele quando mais precisou de mim.
Que espécie de amigo eu era. Filipi
sempre dizia:
- Erik,
um dia quando eu não estiver aqui, você me promete que vai ajudar uma pessoa
como eu lhe ajudei?
Eu
olhava para ele e dizia cheio de confiança e segurança:
-
Cara, você vai ser a pessoa que mais vai viver neste mundo. Você é querido por
todos. Ajuda a todos. O que pode acontecer? Além disso acho que parto desta
para melhor primeiro que você.
Ele
tocava em meus ombros e me falava: - Então já que é assim, você não tem por que
não prometer. – e ficava me encarando com aqueles olhos de cachorro pidão até
que eu cedia e prometia.
Mas
uma promessa que achei jamais cumpriria. Quando estou só em meu quarto, deitado
em minha cama e olhando pra o meu teto estrelado com aqueles adesivos
brilhantes, penso naquela manhã fatídica e então meu coração se despedaça novamente...
----/----
-
Erik, corre aconteceu um acidente com o Filipi
-
Com quem? Com o Filipi? – Levanto-me da carteira e saio correndo atrás do
portador de tal notícia e enquanto tento lhe alcançar continuo gritando. – O
que houve? Ele está bem? Onde ele está?
Meu
coração pressentia que está manhã não seria uma das melhores. “Eu tinha certeza
que não deveria ter saído da cama essa manhã” – meus pensamentos me falavam
tentando acalmar meu coração.
Empurrando
os que se aglomeravam no portão da escola, para abrir passagem por entre alunos
que tentavam entrar e outros que apenas conversavam na entrada, finalmente
consegui romper a multidão dos alunos, enquanto ouvia ao longe a voz daquele
que veio correndo buscar-me:
-
Erik, Erik, por aqui! Venha rápido antes que o levem.
Meu
coração dispara. Respiro longamente e profundamente e corro. “Preciso socorrer
meu amigo. O que quer que estejam fazendo com ele irão se ver comigo.”
Ao
virar a esquina é como se o céu que estava tão claro e o sol que estava tão
brilhante e quente de repente perdessem todo o brilho.
Meu
suor é frio.
Minhas
mãos tremem.
Minhas
pernas não me obedecem.
Meu
peito se aperta.
E eu
choro.
----/----
Mudei
a posição de minha cama. Arranquei os adesivos brilhantes. Dei uma nova pintura
ao meu quarto, mas nada disso adiantou muito.
A
dor de perder algo precioso é incomparável. Insuportável. Insubstituível. Um
dia ela diminui, mas nunca se perde com o tempo. Sempre estará lá. Lembrando a
dor da perda.
Alguns
meses depois fui obrigado por minha mãe a sair de casa. Ir a praça, ao parque,
cinema, jogar bola e o que mais garotos da minha idade fizessem. O que ela
queria mesmo era que eu voltasse a ser o Erik de antes. Não na verdade ela
queria que eu fosse o Erik feliz, alegre e sorridente depois que conheci o
Filipi.
Antes
de conhecer Lipi, eu não tinha amigos. Vivia de “carão” e não queria ninguém
por perto. Era infeliz. Sem amigos para compartilhar qualquer descoberta, fosse
grande ou pequena. Com grande significado ou sem não. Mas ele me viu e se
grudou a mim, mesmo quando eu lhe dizia que se afastasse ou ele se machucaria.
Ele sorria e com aqueles olhos negros dizia:
-
Machucar é bom, nos ajuda a aprender e não repetir nossos erros de novo. Quero
ser seu amigo e vou ser. Queira você ou não.
É
ele era teimoso feito uma mula. Não gostava de ver ninguém cabisbaixo. Terminou
que nos tornamos melhores amigos, sendo ele o irmão que nunca tive e meu único
melhor amigo.
Mas
Deus o tomou para Si. E isso quase me afundou. Quase me matou de desgosto. Não
fosse pela promessa. Ele sabia. O teimoso parecia saber o que aconteceria e
garantiu que eu me reergueria como a fênix e que jamais voltaria a ser o mesmo
Erik que fui antes de conhecê-lo.
Bom,
alguns meses depois, finalmente minha mãe convenceu-me a voltar a escola. Foi
quando eu conheci o Samuel. Lembrei-me da promessa e estou tentando cumpri-la.
----/----
-
Cara, você precisa sair dessa. Se chegar as pessoas. Fazer amigos. É disso que
você precisa: AMIGOS.
- Ah
tá olha quem fala. O cara que só tinha um amigo.
- É
verdade Samuel. Tinha um. Não tenho mais um, eu tenho vários. Mas e você? Só
tem a mim. Do que você tem medo?
-
Não tenho medo de nada Erik. E fique você sabendo que tenho outra amigas sim.
-
Amigas!? Ah, sim você fala de Dany e Evellyn. Se analisarmos a Dany nem pode
ser chamada de amiga, porque você quer algo mais com ela. E quanto a pobre da
Evellyn ela veio de brinde com a Dany.
-
Sério isso? Você agora vai ficar pegando no meu pé Erik? Não quero amigos, e
você só é meu amigo hoje porque insistiu muito. Grudou em mim feito, feito,
feito... sei lá o que.
-
Sorte sua hein pode dizer...
- É
sim. Muita sorte. – vejo então no olhar de Samuel um misto de tristeza e dor.
-
Qual o problema meu amigo? Me conta o que te deixou assim.
-
Não dá pra esconder nada de você né?
-
Você sabe que não. Então desembucha logo. Se não puder ajudar pelo menos posso
te ouvir.
-
Tudo bem! Na noite passada tive um sonho com meu pai.
- E
por isso você ta assim? Samuca por favor, eu já te disse...
-
Claro que não! Não foi um sonho e sim um pesadelo. Ele me afogava! – Samuel
dizia isso com os olhos cheios de lágrimas. – Você me entendeu? Meu pai me
afogava Erik. Ele nunca me amou. Sempre me odiou – rompendo em um choro
angustiante Samuel continuou – Nos abandonou por minha causa, nunca me amou.
Minha mãe me odeia. Todos me odeiam. E você me pede para fazer amigos.
Envolvo-o
em um abraço apertado, enquanto ele se debate e ofereço-lhe as únicas palavras
que posso pronunciar com olhos nublados pelas lágrimas e a voz embargada de dor
pelo sofrimento de meu melhor amigo.
- Eu
não te odeio Samuel. Eu sou e sempre serei seu amigo. Eu te amo meu amigo.
Lembro-me
então de Filipi. De suas palavras: “- Prometa-me que vai ajudar...”
Nesse
momento meu coração não suporta e reafirmo ali, abraçado a Samuel, a promessa
feita a tanto tempo.
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