Capítulo V
“Chega perto, não diz
nada, apenas abrace-me e deixe que eu sinta a vibração da tua pele. Fica aqui
em silêncio, deixa-me escutar a tua respiração e assim nossos pensamentos
fluirão num único e pulsante propósito.
Acaricia minhas
costas enquanto sinto o subir e descer do teu peito que abriga a caixa tão
preciosa onde me guardas e assim deixe que uma aura nos envolva. Não tente
entender, viva esse momento, sinta a magia e talvez ouças os murmúrios da minha
alma.
Gentilmente solte-me
e segurando-me pelas mãos, dê-me àquele sorriso e enfim diga: “Eu te amo!”,
prometo que retribuirei com iguais palavras e farei esse momento eternizar-se
em nossas memórias. Se uma lágrima trilhar os caminhos da minha face, não se
assuste! É apenas o coração transbordando a magnitude desse momento.”¹
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O
momento.
Nossa
vida é feita de momentos. Momentos bons ou ruins. Quem os define somos nós.
Quem diz como será esses momentos também somos nós. A primeira viagem, o
primeiro sorriso, o primeiro encontro e o primeiro beijo. “Sublime momento¹.” E
se deixarmos esses momentos passarem, nos arrependeremos para sempre.
Lá
estava eu. Sozinha com um papel na mão e com uma dúvida cruel em minha mente.
Que decisão tomar? O que fazer?
Um
endereço. Um nome: Samuel Amorim.
Ir até a sua casa seria uma boa, mas e quando
chegasse lá o que eu faria? O que eu diria quando o visse na porta olhando para
mim.
Não,
eu não poderia ir até lá, teria que esperar por uma ocasião melhor, por um
momento adequado para falar com ele. Minha preocupação era saber quando esse
momento chegaria e se algum dia ele chegaria.
O
silêncio da biblioteca às vezes me incomodava. Ver todos aqueles alunos ali
sentados com suas cabeças baixas, seus olhos vidrados em livros parecendo hipnotizados
naquele momento me angustiava, eu precisava sair dali.
Não
era a biblioteca, nem os alunos que me angustiavam, mas era a minha indecisão.
Agora que sabia seu nome e onde morava me deixava furiosa comigo mesma por não
ter a coragem de fazer o que meu coração mandava. E isso era medo. Medo de não
ser correspondida, de que ele não demonstrasse sentir o mesmo que eu achava
sentir por ele. Medo de ser desprezada por alguém que talvez eu amasse. E o
medo muitas vezes nos faz perder os momentos sublimes que podemos viver.
Parada
ali na frente daquele balcão, decidi por fim que era hora de agir e não esperar
pelo destino. Decidi que era o momento de falar com ele e ver o que iria
acontecer. Se tiver de ser será. E olhando para a sombra de livro que a luz refletia
através da porta da biblioteca disse para mim: “É hora de escrever a minha
própria história". E caminhei em direção à porta que me levaria a
felicidade.
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Os
momentos que mais gostava era ficar só. Na verdade era caminhar só. Pensar, refletir
sobre a vida. Sobre a minha vida em especial. Mas ficar só já não estava sendo
mais tão satisfatório e prazeroso. Depois daquele encontro na biblioteca meu
coração não desejava mais ficar só, caminhar só, rir só. Meu coração queria
compartilhar estes momentos com alguém.
Enquanto
caminhava e pensava se seguiria o conselho de meu amigo em procurar Dona Neide
ou não, podia ver casais sentados dividindo um sorvete, rindo de alguma piada,
conversando, compartilhado pequenos momentos, que por mais simples que fossem os
aproximavam cada vez mais, ajudando a criar laços fortes e sinceros. Era isso
que eu queria, pequenos momentos que ficariam gravados na minha mente,
infelizmente para isso teria de falar com D. Neide.
O que
realmente me incomodava não era perguntar quem era aquela garota, e sim o
depois.
Erik
me deu uma saída, mas não pensou no depois. Sim e depois que conseguir o nome
dela e descobrir quem é ela, o que eu iria fazer?
Bom eu
teria duas opções, a primeira era ficar apenas seguindo e olhando para ela e a
segunda era dizer o que sentia. Mas a dúvida era e se ela risse de mim ou
gostasse de outro, ou um namorado que amasse demais, eu só arrumaria confusão.
E definitivamente eu não queria isso. Minha vida já era uma confusão sem isso,
não precisava de mais complicação nela. Já tinha minha mãe.
Minha
mãe. Isso mesmo ainda tinha minha mãe, que menina em perfeito estado ia querer
uma sogra que digamos não era nada normal e cheia de problemas? Nenhuma! Melhor
deixar do jeito que está. Se o destino não quis que nos encontrássemos de novo
deve haver uma razão.
A
fachada era antiga. Acho que do século 18 ou talvez 19, cheia de elementos
belos e decorativos parecia até uma igreja, mas quando se olhava para cima de
suas belas portas, podia se ver o letreiro que dizia: “Biblioteca Professor
Astrogildo Silva”. Não sei como cheguei ali. Parado diante daquelas portas o
medo paralisou minhas pernas. O que deveria fazer? Que decisão tomar? “Entrar
ou não entrar, eis a questão!”
O que
eu decidisse naquele momento mudaria minha vida. Eu tinha uma escolha e isso me dava medo. As
mudanças nem sempre são acompanhadas de coisas boas e alegres, às vezes vem
recheadas de dor e lágrimas.
Quando
nos mudamos pela primeira vez, não foi tão fácil. Lembro que não tínhamos
escolha, minha mãe disse que não teve escolha. Eu chorava muito por ter de sair
da minha cidade e deixar amigos que comigo compartilharam momentos tão bons.
Depois disso prometi a mim que jamais faria amigos de novo, mas quando cheguei
aqui Erik não me deixou cumprir está promessa. Ele meio que me perseguia,
sentava ao meu lado na hora do intervalo e falava por horas, e mesmo quando eu
não o respondia não se importava e continuava a tagarelar. Mas quando um dia ele não estava lá, percebi
que sentia sua falta, daí em diante ele tem sido meu único amigo.
Não
curto muito mudanças, ou melhor, não curto o que vem junto com elas.
Enquanto
estava em meu dilema, a porta foi abrindo trazendo para mim a mudança que eu
tanto queria e temia. O momento sublime que eu tanto esperava para mim. Para
nós.
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Foi
como um filme, as portas se abrindo e a felicidade ali, simplesmente parada à
minha frente. Nesse instante, resolvi não perder a oportunidade e viver aquele
momento.
Fui
caminhando em sua direção, quando ele também começou a andar em minha direção,
a afobação foi tanta que não sei como, escorreguei no degrau e se não fosse por
ele teria me estatelado no chão. É o destino tem dessas coisas...
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Eu
parado ali na frente da biblioteca pensando o que fazer e como fazer. Tentando
tomar coragem, quando de repente vejo as portas se abrirem e para minha
surpresa ela sair e vir em minha direção. Ela vinha em minha direção, e agora o
que vou fazer, não podia ficar parado ali feito um poste e resolvi avançar
também. E num piscar de olhos aconteceu...
Agora ela estava ali em meus braços. Eu,
Samuel, fui o seu salvador. Foi tudo tão rápido, mas a sensação foi
maravilhosa. Naquele momento soube que queria proteger aquela garota para o
resto da minha vida.
¹Sublime Momento - texto cedido pela minha amiga Bruna Ramos. Você pode ler este
e outros textos em http://bruna-wwwvalsadaspalavras.blogspot.com.br/
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