quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A FELICIDADE - CAPÍTULO VII - Autor: Zedekiah

A FELICIDADE
Capítulo VII

De sobressalto acordo e percebo que tudo não passou de um sonho. Na verdade, de um pesadelo. Estou suado, a respiração ofegante e minhas mãos estão tremulas. Procuro manter a calma e controlar minha respiração. Sento-me a beira da cama procurando por minhas sandálias. Calço-as e espero alguns segundos até ter a certeza de que se ficar em pé não cairei. Não desejo acordar minha mãe com um susto.
No caminho a cozinha, vou pensando neste mesmo pesadelo que venho tendo a tanto tempo, a mais ou menos três anos. Sim, é isso mesmo, eles começaram quando ele nos deixou.
Estamos em um parque, meu pai e eu, que por mero capricho do destino também se chama Samuel, não sei qual o motivo de minha mãe ter optado por este nome, ela nunca me contou e quando pergunto ela sempre arruma uma forma de não responder. Já desisti de saber.
O parque tem árvores frondosas, com folhas bem verdes, copas grandes abriga ninhos de pássaros que se sentarmos embaixo de seus galhos podemos apreciar o canto deles. As gramas verdejantes nos permitem correr, deitar e brincar até nos cansarmos. Bem no centro do parque existe um lago, e é para lá que meu pai me leva. No primeiro momento, sinto suas mãos no meu ombro a me guiar, como se não quisesse que eu me afastasse dele, algo dentro do meu peito sente uma alegria, uma felicidade ao sentir o seu toque, o aperto de suas mãos em meu ombro. Olho para ele, seus olhos estão fixos a frente. Ele olha para o lago, direciono então meu olhar para o lago e posso contemplar as aves que lá estão. São gansos, patos e cisnes, alguns nadam, outros banham-se enquanto dezenas de pessoas os observam. As aves parecem fazer pose, gostam de se exibir e o fazem com maestria. A cada passo nos aproximamos mais e mais do lago. Agora entendo porque meu pai não tira os olhos do lago, não consegue mudar o foco da sua visão. O lago parece uma pintura, tão linda, tão bela transmitindo paz e calma a quem lhe observa.
É quando tudo muda. É quando a paisagem se torna um grande borrão. O artista parece não ter ficado satisfeito com a sua pintura. Chegamos a borda do lago, meu pai vira-me para ele e posso finalmente ver seus olhos cor de mel, mas espere, eles estão negros, transmitindo tristeza, dor e pesar. Não ele não olhava a paisagem, ele observava a água. Segurando-me com força, inclina-me sobre as águas e segura-me embaixo da água. Debato-me e luto para desvencilhar-me de suas mãos, de seus braços, mas ele é forte demais. E percebo que tudo ao meu redor torna-se escuro e frio. Já não sinto seus braços e mãos. E aí que de um salto eu desperto.
Três anos.
O caminho para a cozinha para ser tão extenso. Sinto algo quente correr sobre minha face. Por mais que eu não queira derramar uma lágrima, não consigo conter-me, é mais forte que eu. Pensar que o homem que me gerou foi capaz de me abandonar é uma dor maior do que qualquer outra. Não entender o motivo é pior ainda.
Será que ele não me amava? Será que um dia ele me amou? Teria ele coragem de me matar? Questões que jamais terei respostas.
Levo um susto, quando acendo as lâmpadas da cozinha e a vejo ali, sentada a mesa no escuro olhando para mim. Seu olhar está diferente. Parece que algo se acendeu nele. Ainda que seja uma pequena luz de esperança. Ela mudou. Algo a fez mudar.
- Mãe!!! Que susto a senhora me deu.
- Desculpe Samuel, não foi minha intenção...
- Tudo bem! – dirigindo-me a geladeira – Da próxima vez acende as lâmpadas. A senhora está bem? Precisa de alguma coisa?
- Não, eu estou bem, meu filho. Pode ir para a cama.
- A senhora não vai?
- Não, vou esquentar um leite e depois eu vou.
- Tá bem então. – estou voltando para o quarto quando de repente sinto as mãos de minha mãe segurando as minhas.
- O que foi mãe?
- Filho, me desculpe se nunca falei muito do seu pai, é que – lágrimas começam a descer por sua face – é que é muito difícil pra mim...
- Mãe! Eu sei, não precisa. Ele te largou. Te abandonou. Eu te amo mãe, mas você precisa esquecer ele. A senhora precisa viver.
- Quando você nasceu, eu pensei que tudo seria diferente. Que tudo voltaria ao que era antes, mas...
- Mãe do que a senhora está falando? Como assim voltar ao que era antes? A senhora precisa descansar, venha vou leva-la para o quarto.
- Não eu preciso falar. Eu preciso que você saiba. – minha mãe estava sofrendo, disso eu já sabia, mas agora era diferente. Parecia que ela escondia algo de mim há muito tempo e agora precisava me contar. – Foi quando você nasceu que eu perdi. Foi quando você nasceu que a minha alegria foi embora, que minha felicidade se perdeu.
E voltamos a mesma história em que todos culpam o Samuel de algo que ele nem sabe, mas tudo bem.
- Mãe do que a senhora está falando? O que eu fiz a senhora perder quando nasci? Porque?
Nesse momento posso ver seus olhos úmidos, molhados de lágrimas e vermelhos como o sangue. Não havia apenas lágrimas, existia dor e muita tristezas neles. E quando ela fitou meus olhos eu pude sentir toda a dor que ela sentia. A culpa me consumia por isso, mesmo sem saber o motivo, eu sabia que ela me culpava de verdade e isso me frustrava, me arrasava.
Eu já não tinha certeza se eu era amado.
- Porque, porque você nasceu?
- Mãe eu... – ao ouvir isso, meus olhos se encheram de lágrimas e corri para meu quarto fechando a porta e tentando esconder-me de tanta infelicidade. Mas era em vão eu podia ouvir o lamentar de minha mãe que chorava e gritava que eu era o culpado.

----/----

Amanheceu!
Finalmente o sol resolveu dar o ar da sua graça. Meu desejo era esquecer tudo daquela noite. O pesadelo. Minha mãe. Meu pai. Troquei de roupa o mais rápido que pude, peguei minha mochila e sai para a escola. E dessa vez peguei o caminho mais longo. Precisava caminhar. Precisava reordenar as minhas ideias.
“Se eu tivesse 20 anos ou se eu trabalhasse, poderia sair de casa. Morar só. Sim, morar só essa seria uma boa solução. ”
Não sei o que houve naquela noite. Por mais que tente não consigo entender. Minha mãe parecia tão bem esses dias. De repente uma recaída brusca dessas. Não sei o que vou fazer agora. Meu refúgio por enquanto é a escola. Lá terei um pouco de paz e quem sabe esqueço tudo e quando retornar tudo já estará normal. Queria que tudo isso tivesse sido um sonho, um pesadelo.
Chego na escola mais cedo do que o de costume, então resolvo ir à biblioteca, hoje é quinta-feira e quero revisar o trabalho antes de apresentar em sala.
- Samuel! Samuel! – Aquela voz. Nossa como uma simples voz, pode mudar tudo. Uma voz tão doce que consegue acalmar os pensamentos e nos fazer esquecer momentaneamente nossos grandes problemas. – Samuel, você está me ouvindo. Tá tudo bem?
- Eh, ah! Oi tô ouvindo sim, como não poderia. – na presença dela fico perdido, desconcertado. Mas é tão bom, é tão gostoso.

----/----

“Não sei se é rosa, azul ou verde ou para sempre a água que matará a minha sede. Não sei se é mágica ou encantamento, se vai ser só flores ou virá tormento. Não estou certa se teremos uma vida longa de muita sorte ou se no meio do caminho encontraremos a morte.

Não estou certa se algo bom vai acontecer ou se ele vai embora ao amanhecer. Não quero saber se teremos na conta um milhão, mas quero que toda noite ele segure minha mão. Não quero saber se teremos uma casa em Nova Iorque, Recife ou Ipanema, mas quero-o comigo para resolver esse dilema.

O que importa se serei chefe ou subordinado? Se ele está incondicionalmente ao meu lado.
O que importa se farei faculdade, curso técnico ou se ficarei à toa? Se ele apoia tudo isso “numa boa”. Quem sabe se amanhã caminharei para o norte ou para o sul? Se meu vestido de noiva será branco ou blue?

Não me perguntem sobre o amanhã ou o que na minha mente se passa, pois até aqui o presente me basta. Ainda não sei se será para sempre ou eterno enquanto dure, porém quero que seu sorriso sempre me cure. Sei que é amor e é incondicional. Que é muito importante e não é banal, que me faz muito bem quando estou mal.
O resto? Deixo no etc e tal.”¹

----/----

- Você passou por mim e não falou. Tá fugindo de mim?
- Eu? Fugindo? Não, fugindo, não. Desculpe é que realmente não te vi. Estava indo na biblioteca rever um trabalho...
- Tudo bem. Posso ir com você?
- Claro. Se você quiser, porque com certeza eu quero – Opa! O que eu to falando. Ela olha para mim e sorri e começa a caminhar enquanto eu fico ali parado.
- E então, você vem ou não.
- Vou!
E vamos seguindo para a biblioteca, como queria que este caminho não tivesse fim. A presença dela me dava uma sensação de paz interior. Com ela era mais fácil sorrir. Infelizmente chegamos a biblioteca. Entramos e passamos por D. Neide que olha para Dany com um olhar de cumplicidade, e o mais estranho e que Dany retribui o olhar com algo mais, com um sorriso. Sentamos na mesma mesa. Dany deixa sua bolsa, caderno e livros e se dirigi a um dos corredores da grande biblioteca e enquanto ela vai, não consigo desviar o olhar dela.
Descubro então que realmente estou apaixonado.



¹ Só sei que é amor - texto cedido pela minha amiga Bruna Ramos. Você pode ler este e outros textos em http://bruna-wwwvalsadaspalavras.blogspot.com.br/

Nenhum comentário:

Postar um comentário