Finalmente,
o sinal toca no Colégio e Curso Ana Tereza Cristina anunciando o fim das aulas
daquele dia. Junto meus pertences às pressas, não quero perder um minuto ao
lado dela. Sentir suas mãos, seu cheiro, seu toque. Tudo isso me acalma,
aquieta meu coração. E depois da noite de ontem preciso ainda mais dela.
Marcamos
de nos encontrar no lago. Sozinho, depois do pesadelo, não me atreveria a
chegar perto de um lago, mas com ela a paisagem muda, fica serena e bela. Chego
no lago, no local onde marcamos e não a vejo. Meus olhos percorrem toda a
circunferência a procura dela, mas não conseguem encontrá-la. Sento-me então no
banco e de repente uma mão cobrem meus olhos. O perfume, sei que é ela, mesmo
assim toco suas mãos. Acaricio por um estante e de algum modo a puxo para mim
dando-lhe um beijo em sua boca.
Tudo
ao redor desaparece. Problemas, preocupação, sonhos ou pesadelos, já não
existem. Ali, naquele momento somos apenas nós. Dany e eu. O Soprar do vento. O
canto dos passarinhos. E até o calor do sol daquela tarde não incomodam, mas
fazem aquele momento único e maravilhoso.
-
Então? O que você tem pra falar, você parecia tão angustiado no telefone. –
Dany indaga sentando ao meu lado e segurando minha mão.
Olho
para suas mãos segurando as minhas e penso que se contar posso perdê-la e
definitivamente não quero isso. Sinto sua mão em meu queixo, suavemente ela
ergue minha cabeça e aperta minha mão.
-
Samuel, não precisa ter medo. Eu te amo. Seja o que for estarei aqui sempre pra
te ajudar. – Olho para o lago e as imagens do pesadelo vem a minha mente. Sinto
que vou chorar. Não quero e não posso. O que ela pesaria ao me ver chorar. Que
sou fraco e inseguro. – Confie em mim Samuel. Não vou te deixar por nada, já
disse, eu te amo.
- Eu
sei. Quero que você saiba que você é, foi e será a melhor coisa que já
aconteceu na minha vida Dany. Eu te amo muito. É só que eu não sei por onde
começar...
- Tudo
bem! Quando você estiver pronto, ta bem? Mas você disse que iria me levar para
conhecer sua mãe e também iria me apresentar seu amigo, que aliás eu ainda nem
sei o nome dele.
-
Erik! O nome dele é Erik e se ele estivesse aqui saberia por onde eu devia
começar. Você vai gostar dele. – Ao ouvir o nome de Erik, percebo que Dany fica
meio excitada – Que houve você está bem?
- Você
disse Erik?
- Sim,
isso mesmo. O que foi? Você conhece?
- Meu
irmão tinha um amigo chamado Erik. Eles eram muito amigos. Viviam juntos, pra
cima e pra baixo. Sabiam tudo um do outro.
-
Sério. Que surpresa. Será que é a mesma pessoa?
- Não
sei. Depois que Filipi morreu não nos falamos mais. Erik se afastou da minha
casa. Ficou um tempo sem vir a escola, parecia que tinha desistido. Foi difícil
pra mim e minha família, mas pra ele sabe, parece ter sido muito pior.
-
Sinto muito. Mas quem sabe vocês não reencontrem-se novamente.
- É! –
Falar de Filipi ou lembrar de seus amigos sempre deixa Dany triste e
cabisbaixa, parece que apesar do tempo ela ainda não superou.
-
Quanto tempo faz que seu irmão morreu?
- Três
anos. – agora quem baixa a cabeça sou eu, pois exatamente a três anos fui
abandonado. – Que foi?
- Sabe
Dany, meu pai não morreu como muitos pensam e eu até goste que pensem. A
verdade é que a exatamente três anos ele abandonou minha mãe e a mim também.
-
Sinto muito, Samuel.
- É
por isso que eu ainda não te levei em casa. Minha mãe ainda não superou. Ainda
não aceitou isso e espera que um dia ele volte. Ela está doente e me culpa pelo
fato dele ter ido embora.
- Você
sabe que a culpa não é sua né?
- Às
vezes eu não tenho tanta certeza. Tem noites que ela surta e grita comigo
dizendo que eu nunca deveria ter nascido, que eu fui o culpado pela saída dele
de casa. Tenho vontade de sumir, ir pra bem distante de casa e nunca mais
voltar.
- Não!
Entenda, como você mesmo disse ela está doente. Precisando de ajuda. Se você se
for ela só irá piorar ainda mais.
- E
quanto a mim – minha voz agora já não era suave – ninguém pensa em mim? No que
estou sentido? Como me sinto ao ser rejeitado por aquela que deveria me amar?
- Meu
amor! – sua voz penetrou por meus ouvidos chegando a meu coração e me acalmando
– Perceba que se ela realmente não te amasse teria te abandonado a muito tempo.
Mesmo em meio a dor que ela sentia ficou ao seu lado...
-
Como? Como ela me ama se me culpa? Eu não entendo esse amor Dany
-
Samuel, ela sofre e precisa colocar isso pra fora. E infelizmente escolheu você
por que, talvez soubesse que você independentemente da situação ou o que ela
viesse a fazer jamais você a desprezaria e a abandonaria.
- Não
sei se aguento mais. Não tenho em quem me apoiar
- Tem
sim! – Dany me abraça – Eu estou aqui. Se apoie em mim se for preciso. Samuel
você é o porto seguro de sua mãe. Não a abandone.
Ficamos ali, abraçados por um bom tempo. Seu
cheiro me acalmava. Os seus braços me davam segurança. Como era bom ouvir a sua
voz. Não queria sair dali. Queria que o tempo parasse naquele momento.
----/----
Três
anos passaram e a cidade de Cajueiro/AL permanece a mesma. O bom de cidades
pequenas é isso. Você pode passar anos fora e quando voltar continuará a mesma.
Sabe aquele poema de Drummond, Cidadezinha qualquer, pois é. Ele descreve
fielmente Cajueiro. Respirar novamente o ar dessa cidade me traz recordações
que há muito queria esquecer e não consegui. Dizem que o tempo cura qualquer ferida,
comigo o tempo não foi tão bom curador.
Três
anos que partir. Três anos que os deixei, sem explicação, sem nenhuma palavra e
nem um beijo.
Antes
eu o desprezava, não o beijava e nem o abraçava. Não o acompanhei em seu
primeiro jogo na escola, nem vi sua primeira feira de ciência e nem fui a uma
reunião de pais ou mestres. Não corri para o seu quarto quando ele gritava e
chorava porque tinha tido um pesadelo, ou sequer corri para levantá-lo quando
ele andava de bicicleta caia e machucava o joelho. Quantos momentos perdi. Que
abismo criei entre mim e meu filho. Talvez seja tarde demais, mesmo assim quero
que ele saiba que apesar do tempo e da demora para isso e que seja tarde demais
eu finalmente descobri. Eu amo meu filho. Foi por ele que eu voltei.
----/----
-
Samuel isso é apenas um pesadelo, seu pai jamais faria isso com você.
- Então
porque ele me abandonou?
- Ele deve
ter dito seus motivos. Não estou dizendo que ele esteja certo pelo que fez, mas
se um dia ele voltar, primeiro o escute. Tente entender as suas razões.
- Ele voltar?
Você sabia que durante todos esses anos ele nunca escreveu ou telefonou. Nunca!
Acho que ele nunca voltará.
- Mas é
você Samuel?
- Eu o
quê?
- Você
gostaria que ele voltasse? O que você sente por ele?
- Eu...eu
não sei. Não sei o que queria, não sei se o que sinto é saudade, raiva ou ódio.
Apenas penso que se ele estivesse ficado e enfrentado o que quer que fosse as coisas
fossem diferentes e minha mãe fosse outra.
- Mas
nem tudo acontece do jeito que nós queremos – sei que ela se refere a morte de
seu irmão – porém devemos saber que tudo é permissão de Deus e devemos aprender
alguma coisa com aquilo que passamos.
- Eu sei.
Eu aprendi a sofrer.
- Samuel!!!!!
– Ela bate em meus ombros, olha em meus olhos – Um dia você será muito feliz e tudo
isso será apenas lembranças.
- Não quero
que você seja minha lembrança. Quero que você seja meu passado, presente e meu
futuro. – Então a beijo desejando que ela seja minha felicidade para sempre.
Nenhum comentário:
Postar um comentário